O Projeto

As últimas duas décadas do século 20 foram tempos de profundas transformações em nosso país. Quando a sociedade civil buscou os caminhos da redemocratização, promulgou a nova Constituição e abrigou a conferência internacional Eco 92.

Foi também o tempo do despertar dos povos originários que o Brasil, nação forjada sobre seus territórios, vem tentando apagar em cinco séculos de colonização violenta. Povos indígenas que teimam em seguir com suas culturas, apesar de todos os obstáculos, se juntam neste momento histórico para afirmar sua identidade, proteger seu território físico e simbólico, na luta por direitos básicos para a continuidade da vida.

O acervo do Núcleo de Cultura Indígena, com sua importância histórica, social, cultural e política incalculáveis, registra alguns dos primeiros movimentos de organização e luta dos povos indígenas no Brasil. E traz as vozes originárias para vibrarem no ar novamente, com reflexões e ensinamentos.

Passado, presente e futuro na roda do tempo.

O objetivo deste projeto de divulgação do acervo do Núcleo de Cultura Indígena é:

  • trazer para as novas gerações, dentro e fora das aldeias, a força do trabalho realizado por pessoas indígenas que enxergaram além de seu tempo,

  • valorizar o conhecimento e as estratégias dos povos originários em sua luta por direitos,

  • promover reflexão a partir das conquistas e retrocessos na relação do movimento indígena com as políticas públicas do país ao longo do tempo,

  • envolver as pessoas comprometidas com a vida em ações que colaborem para manter o céu suspenso.

 

Talvez a consciência de uma parte da humanidade sobre as grandes ameaças à sua sobrevivência tenha colaborado para a valorização do modo de vida, das culturas e saberes dos povos tradicionais. Povos que em diferentes lugares do mundo ainda cuidam do que é vivo e diverso no planeta.

O acervo do Núcleo de Cultura Indígena aqui reunido traz uma contribuição para questionamentos e busca de caminhos neste novo tempo. Um projeto de quase dois anos de trabalho intenso que permitiu a catalogação e digitalização de todo o material que agora começa a ser divulgado com apoio financeiro de duas instituições parceiras: Forest Trends e outra que prefere não ser citada.

O acervo do Núcleo de Cultura Indígena – NCI é o retrato do movimento orgânico, do fluxo de ideias e propostas brotando de muitas realidades, muitas aldeias espalhadas por todo o território nacional.

As gravações em fitas cassete – a tecnologia disponível na época – aconteciam como ritual de apropriação da realidade. Permitiam o registro da palavra de políticos, autoridades e lideranças indígenas para o compartilhamento com o coletivo, nas aldeias e nas cidades; venciam distâncias com mensagens de apoio, pedidos de socorro, incentivo à mobilização.

Não havia, naquele momento, ideia da importância dessas ações, dos gestos e intervenções que marcariam a história. O acervo traz entrevistas, depoimentos, mensagens enviadas por áudio, registros de reuniões, encontros, eventos públicos, coletivas de imprensa, cerimônias nas aldeias, assembleias indígenas. Às vezes a íntegra dos acontecimentos, às vezes apenas fragmentos, mas proporcionando o encontro com personagens e situações históricas de grande importância para o entendimento do momento que vivemos hoje.

Muitas fitas se perderam, foram reutilizadas apagando o conteúdo original ou ficaram danificadas pelo tempo e condições desfavoráveis de armazenamento. As dezenas de cassetes adormecidas em caixas de papelão em armários domésticos pediam liberdade.

E além das fitas cassete, fitas de vídeo nos vários formatos que se sucederam: VHS, Hi8, Mini DV, Betacam, além de cartas recebidas de indígenas e público do Programa de Índio (Rádio USP- 1985 a 1991), relatórios de projetos, folhetos de divulgação de eventos, matérias publicadas em jornais e revistas.