Tempo de Colheita

1991 a 1999

A última década do milênio foi de grandes transformações também no movimento indígena do país com a multiplicação de organizações indígenas locais e regionais e a ampliação das organizações nacionais.

Para o Núcleo de Cultura Indígena é tempo de novas parcerias, de descentralização do trabalho do Centro de Pesquisa Indígena que deixa o sítio de Goiânia para ações nas aldeias dos povos Yawanawá, Huni Kuin e Ashaninka, no Acre e do povo Krenak em Minas Gerais.

A Aliança dos Povos da Floresta se fortalece e envolve um importante aliado: o cantor e compositor Milton Nascimento. O belíssimo e premiado álbum TXAI é concebido por Milton em 1990, após viagem a aldeias no Acre onde navegou pelos rios e fez amizades que mudaram sua vida. Milton Nascimento é o primeiro artista de renome a incluir em seu trabalho gravações de música tradicional indígena captadas especialmente nas aldeias Wayapy, Paiter Suruí, Kayapó, com direitos autorais assegurados às comunidades.

São anos de intensa produção cultural. A Embaixada dos Povos da Floresta deixa um importante legado, mesmo com o encerramento das atividades em 1993 quando o imóvel é requisitado pelo novo prefeito eleito. Em 1994 é lançado o primeiro CD de música tradicional indígena: “Etenhiritipá – Cantos da Tradição Xavante” em parceria com a aldeia Pimentel Barbosa. Sucesso de crítica e público com videoclipe de divulgação e espaço em toda mídia nacional.

O CD chega aos Estados Unidos e inspira a banda de rock Sepultura que grava uma faixa com o povo Xavante de Pimentel Barbosa em seu álbum Roots, de 1996, levando a música tradicional indígena para todos os cantos do mundo, alcançando um público novo.

Ainda na parceria com o povo Xavante, o Núcleo organiza o livro pioneiro Wamrèmê Zara. Nossa Palavra – Mito e História do Povo Xavante, com relatos dos cinco homens mais velhos sobre o contato com os warazu – os brancos, no final da década de 1940, lançado pela Editora SENAC-SP em 1998. E mais o documentário A´uwê Uptabi – O Povo Verdadeiro, a mostra Xavante 50 anos de Contato, com exposição e performances no Museu da República, no Rio de Janeiro, e a performance ritual de canto e dança Itsari, apresentada na Mostra Internacional de Teatro do SESC em 1997.

Outra parceria importante foi com o fotógrafo japonês Hiromi Nagakura que viajou para várias aldeias acompanhando o trabalho de Ailton Krenak, o que resultou em exposições, livros e documentários no Japão entre 1993 e 1997. Essa parceria foi retomada em 2023 com a exposição Hiromi Nagakura até a Amazônia com Ailton Krenak que já percorreu seis capitais.

O Festival de Dança e Cultura Indígena na Serra do Cipó, em três anos seguidos: 1998, 1999 e 2000 foi outro importante evento para aproximar, pela arte e cultura, os povos indígenas de um público mais amplo. O Festival deixou como frutos a convivência, a aproximação e ainda o CD Canto das Montanhas – música dos povos Krenak, Maxakali e Pataxó e o livro O Lugar onde a Terra Descansa (Eco Rio 2000 e Núcleo de Cultura Indígena) com textos de Ailton Krenak e fotografias de vários autores.

O Núcleo edita ainda duas publicações, em 1992 e 1996, com o resultado de seu trabalho. Uma farta colheita de importantes resultados não só para os povos indígenas parceiros nos projetos realizados, mas também para a conscientização da população brasileira. Um trabalho à frente do tempo que promoveu o pensamento, a arte, a história dos povos indígenas e contribuiu para o respeito a um jeito diferente de estar no mundo.

A sede do Núcleo de Cultura Indígena é transferida de São Paulo para Minas Gerais no final de 1999, fechando um ciclo de quase duas décadas de muitas realizações e iniciando um outro ciclo com novas semeaduras.