Abrindo Trilhas

de 1988 a 1990

Como nas grandes cerimônias nas aldeias, depois da grande festa vem o tempo de retomar as tarefas do dia a dia. Com a vitória do Capítulo dos Índios, garantindo direitos históricos na nova Constituição Cidadã de 1988, os povos indígenas retomam a luta com novas estratégias. Agora o tempo é de assegurar na prática os direitos garantidos, a ocupação plena dos territórios com foco na economia tradicional para autonomia das comunidades. As assembleias seguem reunindo representantes de diversas etnias, dentro e fora dos territórios, para discussão dos caminhos que levem a uma vida digna, com garantia dos direitos assegurados em lei.

A Aliança dos Povos da Floresta é um marco histórico, um movimento improvável que reuniu seringueiros e indígenas, até então adversários na disputa por territórios na Amazônia. A proposta construída por lideranças importantes como Chico Mendes e Ailton Krenak é apresentada em 1987 durante o 1º Encontro Nacional dos Seringueiros. A Aliança se consolida nos anos seguintes, mesmo sob o impacto do assassinato de Chico Mendes, reconhecendo o inimigo comum que acabava com seu modo de vida tradicional: a floresta em pé. A união de forças garantiu a manutenção de grandes áreas de floresta a partir da criação das Reservas Extrativistas, áreas de usufruto comum da terra, com base na ocupação tradicional dos territórios pela população indígena.

Outra importante trilha aberta foi a criação da Embaixada dos Povos da Floresta, em 1990; um espaço cultural instalado em imóvel histórico cedido pela Secretaria de Cultura no governo da prefeita Luiza Erundina, para acolher manifestações culturais dos povos tradicionais. Ao longo de quase quatro anos, a Embaixada promoveu exposições, mostras audiovisuais, performances, cursos, eventos, visitas monitoradas para escolas, recebendo milhares de visitantes.

Ao mesmo tempo, num sítio na periferia de Goiânia, começava a funcionar o Programa de Pesquisa e Formação do Núcleo de Cultura Indígena, numa parceria com a Universidade Católica de Goiás- UCG. O Centro de Pesquisa Indígena, como ficou conhecido, tinha como proposta aliar o conhecimento tradicional ao conhecimento acadêmico, com trocas e aprendizados envolvendo cientistas e sábios indígenas, alunos e docentes da UCG. Essa iniciativa pioneira recebeu estudantes indígenas dos povos Xavante, Suruí, Yanomami, Tikuna, Terena, Krenak, Pankararu e Kaingang em atividades acadêmicas e práticas muito antes do programa de cotas. O Centro de Pesquisa construiu alianças com muitos outros povos e centros de pesquisa como a Embrapa, Esalq, Instituto Gaia, Unicamp.

Outro marco histórico desse período foi o 1º Encontro das Nações Indígenas do Xingu, conhecido como Encontro de Altamira. Convocado pelo povo Kayapó, do Pará em articulação com a UNI e outras instituições, aconteceu em fevereiro de 1989 com presença de mais de 600 indígenas de todos os cantos do Brasil, além de atrair personalidades, políticos, ambientalistas. O Encontro deu voz aos indígenas e ribeirinhos para discutirem os projetos governamentais em territórios indígenas e de proteção ambiental e protestar contra a construção de um conjunto de hidrelétricas no rio Xingu, plano antigo do governo militar. A mobilização conseguiu paralisar o projeto por mais de 10 anos, mas ele foi retomado em 2011 resultando na construção de Belo Monte, um desastre ambiental como já havia sido anunciado há mais de 30 anos.